Sobre as gentilezas.

          Em tempo recente, após uma profunda crise recente, tive medo de perder a qualidade essencial da vida que vem a ser sentir prazer de viver. De sentir curiosidade, de conhecer novas pessoas, de não achar graça no simples, de não sentir aquele desconforto no estomago diante de algo novo, de não distinguir um prato do outro para saciar a fome, o tanto faz, de não apreciar uma boa musica, de não chorar após ouvir/ler/ver uma história emocionante.
         Tive medo da velhice, tive medo do isolamento. De nada mais restar a não ser lembranças cheias de amarguras e cobranças, um teto/cama para dormir, alguns gatos para criar, e apenas isso para amar, e a única leitura de interessante se resumir a bula de remédio e receituários médicos.
         Tive medo de me tornar uma pessoa amarga, insensível, insociável.
         E sabe o por quê do medo?
         Porque eu nunca fui uma pessoa amarga, insensível ou insociável.
         Ao contrário.
         Depois de uma vida inteira de incertezas, com histórias com finais nem sempre gloriosos, de oportunidades perdidas, de falta de apoio familiar para te oferecer teto/cama/estima, de pessoas aproveitadoras, sendo muitas vezes a senhora trajada de negro minha única amiga e conselheira, aprendi a valorizar a quem em um momento ou outro de minha existência foi generosa comigo.
          E, olhando para trás, mesmo com tantas indiferenças/traições/abandono, muitas pessoas foram generosas comigo. E o mais interessante é que, contradizendo aquela máxima que a nossa mente retém mais as experiencias/pessoas negativas (dai o motivo de os jornais darem enfase na coluna policial e escândalos), minhas lembranças mais vivas são de situações, lugares, cheiros, rostos, daqueles que me trataram bem. Pessoas desconhecidas, que não vendiam a salvação e nem usavam Teu Nome Santo em vão, não pediram nada em troca, nem reconhecimento ou agradecimento, muitas só vi uma única e rápida vez. E o que ofereceram nem foi nada de grandioso ou excepcional, mas que mudou completamente minha forma de me relacionar com o próximo.
          Se entre mil pessoas, 99% delas foi indiferente a mim, mesmo assim resta 1% que fizeram a vida valer a pena. E é sobre estas que prefiro me espelhar. E espero que, um dia, no futuro, tenha deixado uma lembrança boa para alguém também.


          E no meu aniversário de 49 anos não esperava nada além dos cumprimentos de praxe, nem por isto dispensáveis, de um ou outro conhecido, seja colega de trabalho, curso, amigos, etc. E, para minha surpresa, minha querida amiga Ritiele, linda colega de curso, futura técnica de enfermagem e, com a vontade de Deus, irá muito além profissionalmente, me presenteou com um conjunto de meias. Fiquei sem palavras. Não foi pelas meias, mas sim pelo tempo que ela me dedicou entre pensar no que me dar, no comprar e oferecer.
         Um gesto carinhoso.
         Só um porém (sim, sempre há), junto não veio um cartão de felicitação.
         Não quero ser ingrato, mas as meias com o tempo se desgastarão e serão descartadas, já o cartão ficaria guardado para sempre, entre outros, junto à outras pessoas queridas e especiais.
         Mas, se na pressa o cartão não veio, fica na lembrança o teu cheiro na hora do beijo da felicitação.
         Obrigado.

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