Do que me arrependo.

          Não sou perfeito, longe disto. Tenho pecados ( e como tenho!) como todos têm.
          Fui justo e tenho consciência que fui mais injusto na maioria das vezes. Fui mais bondoso na intenção do quê na pratica. Poderia ter feito muito mais para tornar este mundo mais justo. E não o fiz.
          Pra me justificar tento me convencer que a vida me tornou assim. Ninguém nunca se preocupou comigo então pra se preocupar com os outros?
          Hoje sei que este pensamento é falho. Se eu sei o que me magoa, do que me faz falta, do que eu gostaria para mim, como eu gostaria de ser tratado, não seria o caso de eu fazer isto pelo meu semelhante e tornar a vida dele melhor?
           Minha vida, como dito, foi cheia de falhas então, pela minha experiência, porque não tornar o mundo melhor para se viver, principalmente agora que tenho uma filha?
           Mas o meu pior pesadelo é ser injusto. Tenho pavor da injustiça, da intolerância, da falta de humanidade. E este é um dos maiores pecados que tenho guardado no coração.
           Alguns anos antes, quando ainda trabalhava de cobrador, à noite, numa parada de ônibus esperando o coletivo para ir pra casa, após beber umas e outras num bar, um homem se aproxima de mim. Reconheci-o. Volta e meia e ele pegava o ônibus que eu trabalhava e pedia carona. Um drogado, alcoólatra, sei lá. Nunca neguei a carona. Havia algo de diferente nele. Vestia-se mal é verdade, andava muitas vezes sujo, fedia. Mas havia uma humildade nele que me impedia de cumprir minha obrigação com rigor. Havia ainda a sensação que aquela pessoa um dia foi alguém normal, um filho, um pai, um marido, e que a vida lhe havia sido traiçoeira.
            Pois bem, nesta noite ele me reconheceu na parada e veio feliz me cumprimentar. Como dito, eu havia bebido algumas cervejas. Ele começou a falar com entusiasmo que havia se reencontrado. Estava frequentando a IGREJA UNIVERSAL DO REINO DE DEUS e os pastores o estavam ajudando a sair daquele abismo em que se enfiara.
            Sinceramente não estava muito a fim de dar continuidade à aquele assunto. Estava embriagado, impaciente com a condução que não vinha. Além de quê não era aquele tipo de companhia que queria. Num ato de extrema arrogância, insensatez, insensibilidade, desumanidade, sei lá, comecei a desfiar um rosário contra a tal UNIVERSAL, Igreja do Reino de Deus. Falei que aquilo é besteira, que lá só tem ladrão, só querem dinheiro, etc. Pra me divertir às custas do coitado ainda falei que era preferível buscar ajuda com o satanás. Falei um monte de besteira, ele a tudo ouvia, quieto.
           Veio o ônibus, fui pra casa, dormi. Esqueci do assunto.
           Tempos depois, encontro o mesmo sujeito, na mesma parada. Ele caído no chão, esfarrapado, sujo, fedendo a urina e fezes. Estava pior que antes. Passei por ele rezando para não me reconhecer. Estava com os olhos fechados, provavelmente dormindo. Me refugiei entre a multidão na extremidade oposto à dele. Já estava quase relaxando quando senti uma mão em meus ombros. Era ele, sorrindo, transtornado, fora de si. Não falava coisa com coisa. Me dizia que eu tinha razão, Satã era melhor. Repetia todas as besteiras que eu havia falado naquela outra noite. Me agradecia de forma exagerada a "ajuda" que eu havia prestado. E da mesma forma que veio foi-se embora.
          Nunca me senti tal mal na vida. Havia prestado um desserviço a uma pessoa que queria se reencontrar, neguei luz a quem queria claridade, fui desumano, imbecil, velhaco, trouxa.
          Pensei em me redimir, ajuda-lo de alguma forma mas nunca mais o vi.
          Fiquei pensando que talvez eu tenha provocado a morte física de alguém, porque a espiritual eu já havia matado antes.
          E eventualmente eu rezo por esta alma. Mas lá no fundo de minha alma eu escuto uma voz dizendo que rezar não é suficiente, pedir perdão de nada vale. Eu tenho que pagar, sentir na pele as mesmas angustias e tormentos que aquele infeliz. E em 2015 eu senti parte daquele tormento.
          Depois do mal feito não há mais nada a fazer exceto reconhecer meu erro e me tornar um ser humano melhor.
          Se eu derrubei uma árvore é minha obrigação plantar no mínima mais dez para substitui-la.

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