À Luciana.

          "Me enxergava como me enxergo agora. Via meus pês, pernas, tronco, braços, não meu rosto, por que mesmo agora, se não estiver defronte a um espelho ou a algo que reflita, não consigo visualizar meu rosto. Vestia uma roupa que nunca havia vestido. Um terno impecável, todo de branco, inclusive os sapatos eram alvíssimos. Me espantei com a palidez das minhas mãos. Eram belas, sem nenhuma marca da passagem do tempo, unhas bem feitas, mas estranhamente pálidas.
          Me via caminhando por um lugar que me era estranho, porém com uma sensação que ali já estivera em outras ocasiões. Uma familiaridade que me fazia andar com segurança, como que sabendo aonde ir. Era um prédio enorme, cheio de corredores, portas. Só não vi nenhuma janela. Tudo era imaculadamente limpo e branco. A sensação de paz ali era confortante.
           Como dito, caminhava. Cruzava por inúmeras pessoas. Todas estranhas, ao mesmo tempo tão familiares! Elas não gritavam, não exageravam nos gestos. Conversavam, riam. E cada vez que se cruzavam, olhavam no olho uma da outra e se cumprimentavam. Não era um mero cumprimento formal não, havia alegria em se rever. O tratamento era sempre idêntico, se tratavam, ou melhor, como eu estava inserido naquele mundo, tratávamos, como irmãos. Não importava a idade, raça, qualquer diferença, éramos todos IRMÃOS. Ponto. Sobre isto, um detalhe me chamou a atenção. Todos eram iguais, se vestiam igual, tinham um comportamento igual, mas eram todos diferentes entre si. Havia pessoas de cor branca, preta, pardas, indígenas; uns mais baixos, outros mais altos, gordos, magros, uns que a beleza chamava um pouco mais a atenção, outros nem tanto. Mas naquela atmosfera toda a diferença unia, não separava .Cada um com suas diferenças complementava o outro. Todos tinham sua importância, eram vitais para manter aquele prédio em pé. Havia uma certeza implícita no ar: sem nos aquela edificação perdia o sentido e desmoronava. Talvez por isso todos caminhassem seguros de seu caminho.
          Ainda sobre o prédio me pareceu de início que ali era um hospital mas não poderia ser, não havia pacientes, médicos, enfermeiros, pessoal administrativo, nem gente da higienização, apesar da limpeza imaculada do lugar. Acho que cada um cuidava da sua obrigação e todos zelavam pelo bem estar do próximo.
          Passava por um e cumprimentava, - oi irmãozinho. Passava por outro, idem, - Bom dia irmãzinha, está muito bonita hoje. E os olhares que recebia eram de ternura, uns mais expansivos, de um legítimo agradecimento, outros mais comedidos, porém sinceros. Eram gente como a gente. Era tão bom andar por ali!
         Quando me dei conta, havia saído de um prédio e entrado em outro. Havia um imenso corredor com os lados cuidadosamente ajardinado e arborizado que dividia os dois prédios. Dois não, eram três. Todos quase eram idênticos, com pequenas diferenças na arquitetura, menos o último, com aspecto bem abandonado contrastando com os demais. No prédio que entrei era um pouco mais ventilado, talvez por causa das janelas amplas emolduradas por cortinas esvoaçantes que dançavam ao sabor dos ventos.Este igualmente branco, mas tão branco que adquiria uma tonalidade azul. Aqui havia janelas que deixavam entrar a luz do sol, Havia aqui, ainda, muitas salas, algumas amplas, outras menores, todas arejadas. Como dito, parecia um hospital. Mas não podia ser, nas salas não se fazia operações nem qualquer outro procedimento cirúrgico, nem consulta. O que se fazia nas salas eram palestras. Nas maiores havia grupos inteiros escutando atentamente alguém falar. Parei em frente a uma delas e percebi que os palestrantes se revesavam de tempos em tempos e quem estava à frente escolhia o próximo a falar, sempre alguém do próprio grupo. Pelo jeito todos falariam até o final daquela atividade. Nas salas menores o atendimento era individual.  Uma pessoa escutava outra falar. O interlocutor interagia pouco na conversa, seu papel era apenas de escutar, enquanto o outro falava, por vezes se lamentava, por vezes chorava.
          A sensação de conforto ali não era tão presente quanto no primeiro prédio, mas a paz, esperança e otimismo compensavam esta falha. Ali as pessoas não caminhavam tão seguras de si nem os cumprimentos eram tão espontâneos, nem o tratamento tão fraternal. Parecia haver um sentimento de culpa em cada ser, era a sensação que se tinha quando baixavam os olhos ao passar por mim. Até no vestuário havia diferença. Poucos usavam ternos, a maioria vestia algo mais simples. Homens calças e camisa de gola, além do sapato. Tudo branco. Já as mulheres, vestiam blusa e saia, e seu calçado era uma sandália bem simples de tiras. Tive a impressão que algumas delas se sentia desconfortável naquele vestuário humilde. Talvez preferisse algo mais chamativo, bonito, ou que se diferenciasse das demais. Impressão minha. Será?
          Caminhei bastante por ali. além das palestras, vi oficinas, vi teatro, musica, muita atividade cultural. E todos eram convidados a participar por revesamento. Até que comecei a sentir cansaço. E uma sensação incomoda de desespero, urgência. MEDO. A sensação de paz deu lugar a insegurança.
           Havia entrado sem perceber na terceira edificação.
           A primeira coisa que me chamou a atenção foi a quantidade enorme de pessoas que perambulava por ali. Sim, perambulava. Andavam de um lado para outro, sem rumo. Ninguém se cumprimentava. O olhar que um lançava ao outro era de malícia, cobiça, de prazeres mundanos. As roupas aqui não eram brancas, mas a roupa vulgar do dia a dia. E a variedade do vestuário era enorme. Havia desde maltrapilhos à ternos caríssimos feito por medida. As mulheres idem, desde uniformes de trabalho à roupas baratas comprada em magazines de beira de calçadas até marcas de grife de renomados costureiros internacionais. Tanto faz a vestimenta, a vulgaridade tornavam todos iguais.
          Outra coisa que me chamou a atenção era o desleixo do lugar. As paredes que um dia foram brancas agora outras cores manchavam a cor original. Aqui e ali o reboco fora caindo ou fora arrancado propositalmente deixando a mostra parte dos tijolos. No chão muita sujeira e, apesar das lixeiras, ninguém parecia ter vontade de juntar. Havia comércio ali. Também havia vícios. Boa parte dos corredores estava as escuras, provavelmente porque ninguém estava preocupado em trocar as lâmpadas queimadas. todos estavam ocupados demais a chegar a lugar algum para tornar o lugar um pouco mais humano para proveito de todos. Aqui as salas se pareciam às de um hospital. Tinha velhos, doentes, gente exageradamente bonita devido a muitos truques estéticos, ou de maquiagem, como se todo o tempo de suas vidas fossem dedicados exclusivamente a aprender estes truques e nada mais. E gente muita feia, não tanto de aparência mas sim de descuido. Para qualquer lugar que se olhasse era desanimador. Não havia gentileza, não havia tolerância, não havia discrição, muito menos respeito entre aquelas pessoas. Alguém sempre queria levar vantagem sobre o outro. Dos vários corredores me vinha o som de risadas e também de choro, lamento, dor.
          Ali, caminhando, comecei a sentir dores. Minhas juntas começaram a estalar, andava a passos lentos. Olhei minhas mãos desnudas e elas já não tinham mais brancura de antes, agora estavam enrugadas, com as veias saltadas. Comecei a sentir um calafrio e meu deu um medo danado de me ver refletido e do que iria presenciar. Sentia-me um velhaco e com certeza seria isto que iria ver.
          Queria voltar, precisava desesperadamente voltar, sair dali. Mas eu já não era mais senhor dos meus atos. Alguma força invisível me empurra mais e mais para o centro do prédio. E com muita dificuldade seguia em frente. Até que estaquei numa enorme escadaria. Na parte que subia havia uma grade para impedir o acesso, restando apenas descer. Desci. No nível inferior do prédio mais um corredor, totalmente na penumbra. Ao final deste uma enorme porta de dois lados fechada. Fiquei parado ali em frente só escutando. Era dali a origem dos choros e lamentos. Tive medo mas sabia que precisava ver o que tinha do outro lado. Quando pensei em tocar a maçaneta os dois lados da porta foram bruscamente empurrados em minha direção. Lá dentro estava muito claro. Havia exagero na iluminação e este brilho repentino me cegou momentaneamente já que já havia me habituado com a penumbra. Do interior saiu à frente alguém todo de branco guiando um grupo de umas trinta pessoas e a lado delas, de cada lado, à direita e à esquerda, havia um trio de homens e mulheres muito sérios ajudando a conduzir o grupo. Passaram por mim ignorando minha presença. Havia pressa para chegar em algum lugar. Olhei as pessoas daquele grupo. Em principio não reconheci ninguém mas aos poucos fui identificando um ou outro que em algum momento cruzaram por meu caminho em algum momento da vida. Até que...
          Quase no final dos trinta, no meio de todos, alguém se sobressaia. Uma mulher, bela, de cabelos tingidos de loiro, vestida de um uniforme tão conhecido meu, azul. Mesmo com uma máscara no rosto eu sabia quem era, meu coração agora disparado jamais se enganaria.
          Eras tu Luciana Menezes.
          E tu estava tão confusa, olhava para um lado, para outro, tentando entender o que estava acontecendo. Teu passo era firme como sempre foi, porém agora não tão segura de si. Se um dia tu pensaste que não dependeria de ninguém para te mostrar o caminho, agora tu era conduzida. E seguia obediente. E nesta tua confusão, me enxergou. Nossos olhares se cruzaram. Pela primeira vez vi um sorriso sincero teu ao me ver. Vi mais, vi gratidão. Mas, havia algo mais em teu olhar. Seria AMOR?
         Esta dúvida não queria levar para eternidade. Tu, pelo olhar, me suplicava que te tirasse dali e te levasse para qualquer lugar. E eu, num ato impulsivo, corri em tua direção. Fui barrado pelos guias. Tu ainda terias alguns estágios de tua espiritualidade a avançar. A mim caberia te esperar.
         Sentei no chão e chorei.
         Tu continuou em frente, com um olhar que mais parecia um consolo, como a dizer para ter paciência, que nunca te abandonasse. Nossos destinos estavam cruzados.
         Em seguida o grupo sumiu de minha vista. Os passos foram se perdendo pela distância até cessarem completamente após o ruido estrondoso de uma porta sendo fechada.
         Fim."

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