CARTA INÉDITA DE ALCIDES MAIA A COELHO NETO.


Rio, 24 de setembro de 1913.

Meu querido Netto. - Não te escrevi até hoje por uma questão de temperamento, bem n'o sabes... Mas, as saudades são indiziveis. Se todos os teus amigos sentem como eua tua falta, és um homem feliz, - o homem feliz, - o homem que encontrou na vida mais um amigo....
Sei dos teus filhos pela família do Gregório e por D. Lulú. Não iria á rua do Rozo sem grande pezar, excepto se os teus filhos estivessem doentes ou se precisassem de mim.
Mas, ao contrário, elles passam muito bem, e eu não comprehendo aquelle gabinete sem o Netto e sem D. Gaby. Ir até lá fora o mesmo que augmentar as minhas melancholias congenitas e adquiridas, que devo vencer, ou, pelo menos, dimniuir, com uma melancholia nova.
Accuso-te de um crime: porque ao Gregorio escreves longas cartas e a mim rapidos bilhetes?
Oh! Netto! Pois, és mais amigo do Gregorio que meu amigo? Feia cousa...
Quanto a D. Gaby, nem falo... São dez annos de relações fratenaes esquecidas... Ha dias, vi-lhe em casa do Gregoria o retrato, ao teu lado. Está mais nutrida e com uma belleza de franceza do Sul, do Béor. Tu, o mesmo typo de selva, deslocado para a cidade e para a arte.
As tuas referencias á França, no rapido cartão que me escreveste, são naturalmente falsas. Soffres da presença immediata. Não ha nada que mais decisivamente extravie o pensamento e pertube a analyse.
A França, meu caro, é uma realidade subjectiva, não objectiva. A França é o passado e o futuro, não o presente. Este, entretanto, é belo e forte, pois não comprehendeste a sua grandeza? Viatico? - Viatico está a pedir a allemanha...
Oh! o odioso paiz! que vaes fazer lá? Eu, se visitar a Europa, irei da França á Italia, voltarei da França a Inglaterra, antes ou depois da França, visitarei a Iberica.
Quanto á Allemanha, terei o orgulho original de não pensar nella.
Tenho trabalhado dois livros quasi promptos. Serás recebido aqui com uma bella festa, ingrato artista, magnificamente barbaro, mas pouco psychologo, pois julgas a amizade dos homens pelas cartas que te escrevem!
Adeus; innumeros apertadissimos e sinceros abraços.

ALCIDES.

P.S. - Como sabes, fui eleito para a academia.'
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(seção ARQUIVOS IMPLÁVEIS de João Condé, O CRUZEIRO de 3 de outubro de 1953)

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